Antes da atual explosão da cultura geek nacional e muito antes do cyberpunk voltar a dominar o imaginário pop mundial, uma franquia brasileira já projetava um futuro distópico onde o planeta sobrevivia sob uma redoma artificial, enquanto jovens guerreiros eram escolhidos para enfrentar uma nova ameaça global.
Essa é a essência de Megasônicos NG.
Criada originalmente entre 1997 e 1998 por Valu Vasconcelos, a obra mistura elementos clássicos do tokusatsu japonês com ficção científica cyberpunk, crítica ambiental, tecnologia ancestral e identidade urbana brasileira. O resultado é um universo que carrega influências visíveis de grandes franquias orientais, mas com uma personalidade própria construída dentro da realidade social e cultural do Brasil.
A história se passa no ano de 2054.
A Terra está prestes a enfrentar um segundo cataclismo massivo. As árvores desapareceram. A natureza praticamente deixou de existir. O céu do planeta agora é coberto por uma redoma artificial criada para proteger a humanidade dos raios ultravioletas gerados pelos buracos na camada de ozônio.
Mas existe um detalhe perturbador nesse novo mundo:
a própria sobrevivência humana virou um produto corporativo.
Em Megasônicos NG, o oxigênio artificial é controlado pela poderosa corporação Atroz Worldwide Developments, empresa responsável por sustentar uma falsa estabilidade social através do monopólio da tecnologia e dos recursos essenciais do planeta.
As paisagens verdes vistas pelas cidades não são reais — são apenas hologramas emitidos por respiradores artificiais espalhados pelas metrópoles. O céu possui uma atmosfera esverdeada constante, criando uma identidade visual extremamente marcante para a franquia.
No centro desse cenário distópico surge Dito Terrini.
Com apenas 13 anos, o garoto leva uma vida aparentemente comum no Rio de Janeiro, dividindo sua rotina entre sonhos, amizades e os Jogos Ultra Radicais, onde se destaca como um dos melhores patinadores da cidade.
Mas tudo muda quando encontra um antigo artefato pertencente ao seu avô.
O objeto desperta uma tecnologia esquecida há séculos:
os Megasônicos.
Os Megas são droides alienígenas mecatrônicos ligados a uma antiga força ancestral chamada Mega-Artefato, capaz de criar conexão apenas com humanos de "alma pura".
É a partir desse momento que Dito se torna parte de um conflito muito maior do que imaginava.
Ao lado de Ark Doneriti — seu melhor amigo e contraponto emocional absoluto — ele descobre que o despertar dos Megasônicos não representa apenas o retorno de antigos guerreiros, mas também a reabertura de uma disputa histórica envolvendo memória, poder, tecnologia e liberdade.
Enquanto Dito representa disciplina, lógica e autocontrole, Ark funciona como o coração impulsivo da narrativa. Um age pelo cálculo. O outro pela emoção. Essa dualidade cria uma das estruturas mais interessantes do universo da obra.
Do outro lado da guerra está Victor Lara, CEO da Atroz e principal antagonista da narrativa. Um homem frio, manipulador e obcecado pela antiga tecnologia Megasônica.
Mais do que um vilão tradicional, Victor simboliza o controle corporativo absoluto sobre a sociedade.
Seu domínio não acontece apenas pela força.
Acontece pela dependência.
E talvez seja exatamente isso que torna Megasônicos NG tão atual.
Mesmo tendo sido concebida ainda nos anos 1990, a obra aborda temas extremamente contemporâneos:
• crise climática
• monopólio tecnológico
• colapso ambiental
• inteligência artificial
• controle corporativo
• dependência energética
• manipulação social
• perda da natureza
• humanidade versus tecnologia
Tudo isso embalado dentro de uma estética que mistura anime, tokusatsu, cultura urbana brasileira e ficção científica distópica.
Outro ponto que fortalece a franquia é sua expansão multimídia.
Megasônicos NG possui atualmente cinco volumes físicos publicados pela Editora Valu Amazing Graphics, no selo Valu Comics e também ganhou adaptação em formato de websérie animada no canal ValuTV, expandindo ainda mais seu universo.
Parcerias comerciais
A Editora Kimera é uma parceira que compra as obras de Megasônicos NG e as distribui, assim como a Lazarus Comic Shop e a Ludds.
O reconhecimento também veio oficialmente.
Em 2016, o primeiro volume de Megasônicos NG venceu o prêmio ABRAHQ na categoria "Melhor Talento do Ano", um feito importante principalmente pelo contexto da época, já que o projeto também apostava no formato digital em um período onde esse modelo ainda era pouco valorizado dentro do mercado nacional.
Hoje, olhando para trás, Megasônicos NG parece carregar algo raro:
a sensação de ter sido uma obra criada antes do seu tempo.
Uma mistura de nostalgia tokusatsu com discussões extremamente modernas sobre meio ambiente, poder corporativo e futuro tecnológico.
Mas talvez o mais interessante seja perceber que, mesmo em um mundo coberto por hologramas artificiais, poluição atmosférica e guerras tecnológicas, a obra ainda mantém no centro da narrativa algo muito humano:
amizade, cooperação, crescimento pessoal e esperança.
E é exatamente isso que transforma Megasônicos NG em algo maior do que apenas uma HQ cyberpunk brasileira.
A obra se torna uma reflexão sobre o que ainda resta da humanidade quando o próprio planeta parece ter sido substituído por máquinas.

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Essa matéria está incrível galera da LUDO TV.
ResponderExcluirValeu demais pelo carinho!