Celebrado em 19 de junho, o Dia do Cinema Brasileiro marca um dos episódios mais curiosos da história cultural do país.
Em 1898, Afonso Segreto realizou a primeira filmagem em território nacional ao registrar a entrada da Baía de Guanabara. No entanto, a película foi danificada antes da exibição pública, transformando o primeiro filme brasileiro em uma obra que ninguém jamais viu.
Mais de um século depois, a data continua simbolizando o nascimento de uma das mais importantes expressões artísticas do Brasil.
Dia do Cinema Brasileiro é celebrado em 19 de junho, data que marca a primeira filmagem no país — um registro que se perdeu antes mesmo de ser exibido.
Em uma manhã de domingo, 19 de junho de 1898, o navio Brésil se aproximava da Baía de Guanabara. A bordo, um italiano radicado no Brasil, Afonso Segreto, acabava de retornar de uma viagem a Nova York e Paris. Na bagagem, além de roupas e lembranças, ele trazia equipamentos que mudariam a história cultural do país — uma câmera cinematográfica e filmes para produzir suas próprias "vistas", como eram chamados os curtas-metragens na época.
Antes mesmo de pisar em solo brasileiro, Afonso fez algo inédito: apontou sua câmera para a paisagem e registrou a entrada da baía, com suas fortalezas e navios de guerra. Estava dado o primeiro passo do cinema brasileiro.
"A data de 19 de junho é muito simbólica da dificuldade que se tem de fazer cinema no Brasil, porque ela é uma data que marca uma ausência, um filme que não existiu." — Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do MAM-Rio
A "Certidão de Nascimento" do Cinema Nacional
No dia seguinte, 20 de junho de 1898, o jornal Gazeta de Notícias publicou o que seria considerada a "certidão de nascimento" do cinema nacional:
"O sr. Afonso Segreto há sete meses que fora buscar o aparelho fotográfico para preparo de vistas destinadas ao cinematógrafo e agora volta habilitado a montar aqui uma verdadeira novidade, que é a exibição de vistas movimentadas do Brasil. Já ao entrar à barra, fotografou ele as fortalezas e navios de guerra. Teremos para dentro em pouco verdadeiras surpresas".
Foi essa simples nota no jornal que eternizou a data, consolidando Afonso Segreto como o pioneiro do cinema brasileiro. A história parecia pronta para um final feliz — mas o destino reservou uma reviravolta digna de roteiro.
O Filme que Nunca Existiu
No mesmo dia da publicação, estava programada uma sessão especial no Salão de Novidades Paris, a primeira sala de cinema fixa do Brasil, inaugurada em 1897 na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, pelo irmão de Afonso, Paschoal Segreto. Autoridades ilustres foram convidadas, incluindo o presidente da República, Prudente de Morais, e o jurista Rui Barbosa.
O público ansiava por ver as primeiras imagens em movimento do Brasil. Mas elas nunca foram exibidas.
Afonso, ainda inexperiente como cinegrafista, abriu inadvertidamente a câmara, danificando a película que continha o registro histórico. O filme que marcaria o nascimento do cinema nacional nunca viu a luz do dia. Os irmãos Segreto, para não frustrar completamente as autoridades presentes, acabaram exibindo vistas estrangeiras — o que gerou grande decepção entre os convidados.
Este episódio curioso revela uma verdade poética sobre a história do cinema brasileiro: o primeiro filme nacional é um filme que não existe.
A Persistência de um Pioneiro
Apesar do fracasso inicial, Afonso não desistiu. Menos de um mês depois, em 5 de julho de 1898, ele realizou as primeiras filmagens completas no país: o desfile fúnebre do marechal Floriano Peixoto e a visita de Prudente de Morais ao cruzador Benjamin Constant.
Entre 1898 e 1903, Afonso registrou mais de 100 filmes. Todos se perderam com o tempo — como grande parte da produção cinematográfica brasileira anterior a 1909.
Seu irmão Paschoal, por sua vez, se consolidou como o principal exibidor e produtor do Brasil até 1907, antes de voltar sua atenção para sua verdadeira paixão: o teatro. Hoje, a única herança viva dos Segreto no Rio de Janeiro é o Teatro Carlos Gomes, no Centro da cidade.
Outras Hipóteses e Controvérsias
Há historiadores que contestam o pioneirismo de Afonso. Alguns apontam que o primeiro filme brasileiro poderia ser "Chegada do Trem em Petrópolis", supostamente exibido em 1º de maio de 1897 no Theatro Cassino de Petrópolis. No entanto, a falta de comprovações e o fato do organizador, Vittorio di Maio, ter vendido seu acervo a Paschoal Sem qualquer menção à obra, levanta suspeitas sobre sua existência.
Também em 1897, a vista "Ancoradouro de pescadores na baía da Guanabara", de José Roberto Cunha Sales, guardada no Arquivo Nacional, tem sua "brasilidade" contestada. Historiadores acreditam que o filme pode ter sido recortado de uma obra estrangeira.
Independentemente dessas controvérsias, a data de 19 de junho permanece como o marco oficial do cinema nacional.
Um Legado que se Renova
Hoje, o cinema brasileiro é celebrado internacionalmente, com obras como Cidade de Deus, Central do Brasil e o recente Ainda Estou Aqui, que conquistou prêmios em festivais internacionais e indicações ao Oscar.
Para celebrar os 128 anos do cinema nacional, o Canal Brasil preparou uma programação especial com clássicos como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Cabra Marcado para Morrer, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil e Central do Brasil. O Itaú Cultural Play também recebe uma seleção de filmes do festival In-Edit Brasil, com produções que têm a música e a cultura brasileiras como eixo central.
A história do primeiro filme brasileiro — que nunca foi visto — é um lembrete de que, no Brasil, fazer cinema sempre foi um ato de persistência. Como observou Hernani Heffner, da Cinemateca do MAM: "É o marco inicial de uma história que tem muitos percalços, mas que segue sempre em frente, com muita persistência até hoje".

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