“Jaqueira não dá melão”: como um cineasta brasileiro construiu, durante décadas, um dos universos de ficção científica mais ambiciosos do país
Se você cresceu nos anos 90 grudado na TV Manchete, assistindo Jaspion, Changeman ou Shurato, é bem provável que carregue até hoje um carinho especial por heróis coloridos, mechas gigantes e histórias que misturavam ação, drama e crítica social. Agora, imagine pegar tudo isso — adicionar cyberpunk, crise climática, esportes radicais e uma pitada de Tupi-Guarani — e transformar em uma franquia 100% brasileira. Esse é o universo de Megasônicos NG.
Por trás dele está Valu Vasconcelos: cineasta, roteirista, produtor, empresário e — segundo ele mesmo — um “sonhador pragmático”. São quase três décadas construindo personagens, repaginando roteiros e batalhando para que o Brasil se torne uma potência audiovisual e editorial.
Nesta entrevista exclusiva para a Ludo TV, Valu abre o jogo sobre sua trajetória, as referências nipônicas que moldaram sua infância, os bastidores da criação de Megasônicos NG, os desafios de produzir conteúdo independente no Brasil e, claro, os planos para o futuro — que incluem light novels, jogos, bonecos colecionáveis e até um live-action. Tudo isso sem perder a essência que faz da obra um fenômeno cult e, agora, premiado.
De skatista sonhador a cineasta, roteirista e empresário criativo, Valu Vasconcelos construiu ao longo de décadas um universo ficcional que mistura tokusatsu, anime, cyberpunk e crítica social num Rio de Janeiro de 2054.
“Em Megasônicos NG, cada personagem carrega um pedaço do criador — e uma mensagem sobre o Brasil que ele acredita ser possível transformar.”
Prepare o Mega Artefato. A jornada começa agora.
SOBRE O AUTOR
1. Para começarmos, quem é Valu Vasconcelos fora das páginas de Megasônicos NG?
“Fora das páginas de Megasônicos NG, eu sou cineasta, roteirista, produtor, empresário, e também um ex-músico, ex-coreógrafo, ex-dançarino, ex-cantor, ex-produtor musical e ex-programador de jogos para internet.”
Todos esses “ex” não desapareceram. Eles se somaram. Acabaram formando o criador, produtor e empresário que sou hoje.
No fundo, continuo sendo um sonhador pragmático: alguém que acredita que o Brasil pode ser uma enorme potência audiovisual e editorial. O que ainda nos falta é conseguir chegar de forma consistente ao grande público final com nossas próprias obras, nossos personagens e nossas marcas.
2. Quando você percebeu que queria trabalhar criando histórias, personagens e universos próprios?
Eu percebi isso muito cedo, por volta dos seis anos de idade. Meu primeiro sonho era ser desenhista de tirinhas de jornal. Desde criança, eu criava minhas próprias versões das coisas que eu gostava: algo que via na televisão, lia nas revistas em quadrinhos ou imaginava a partir do meu próprio cotidiano.
A única grande diferença entre aquele menino e o adulto de hoje é que agora eu tenho uma empresa e consigo tentar fazer isso de maneira sustentável. E, se tudo der certo, fazer isso para sempre.
3. Quais foram suas maiores influências artísticas e narrativas durante a infância e adolescência?
Minhas influências vêm muito da cultura pop japonesa que chegou ao Brasil pela televisão. Eu cresci assistindo Pirata do Espaço, Zillion, Ultraman, Spectreman, Akira — tanto o mangá quanto o filme. E depois, Esquadrão Relâmpago Changeman, Shurato, Jiraiya e Jaspion, que marcaram muito a geração da TV Manchete. Tudo isso entrou no meu imaginário e ficou lá, fermentando.
4. O quanto o tokusatsu, os animes e a cultura pop japonesa influenciaram diretamente a criação de Megasônicos NG?
“Eu fui criado dentro da cultura nipônica do audiovisual, mesmo sem ter plena consciência disso na época. Para nós, crianças, não era ‘conteúdo japonês’. Eram simplesmente séries, desenhos e filmes.”
Esse caldeirão cultural influencia diretamente os temas, a estética, o ritmo e a estrutura emocional de Megasônicos NG.
5. Você se lembra do momento exato em que a ideia de Megasônicos surgiu pela primeira vez?
Lembro sim. Entre 1996 e 1997, comecei a frequentar o estúdio do Beto Braga, meu grande amigo e hoje padrinho da minha filha. Foi ali que aprofundei meus conhecimentos em computação gráfica 3D.
[...] Quando modelei meu primeiro personagem no estúdio do Beto, entendi que queria fazer o meu próprio Star Wars. Foi ali que comecei a criar o primeiro mecha e dois amigos que, no futuro, se tornariam Dito Terrine e Ark Doneriti. Naquela fase, o Dito ainda se chamava Valux e se transformava em Velox. Nada muito criativo, diga-se de passagem. Mas tudo faz parte do processo. Os personagens passaram por muitas fases, formatos, visuais e amadurecimentos até chegarem ao que são hoje.
6. Criar uma franquia brasileira de ficção científica nos anos 90 era algo extremamente ousado. Em algum momento você sentiu que estava “à frente do seu tempo”?
Sinceramente, não. Eu só queria me expressar. Queria contar uma história, mostrar minha própria vizinhança, retratar realidades que eu via ao meu redor e colocar para fora um pouco do que estava dentro da minha alma.
Naquele momento, eu não pensava em “estar à frente do tempo”. Eu nem sabia se alguém um dia assistiria ou leria aquelas histórias. Além disso, naquela época praticamente não existia um mercado estruturado para isso. Ser desenhista ou escritor era visto como algo pessoal, quase um hobby. Não era exatamente a profissão que a maioria dos pais incentivaria.
Então era assim: uma semana inteira trabalhando para pagar as contas e um ou dois dias ralando no meu universo.
7. O que mais mudou em você como artista desde a criação da obra até hoje?
“O que mais mudou fui eu. Eu estudei muito, viajei muito, conheci pessoas no mundo inteiro que estavam tentando fazer coisas parecidas com o que eu queria fazer.”
A cada viagem, eu percebia que precisava estudar mais, entender mais o mercado e compreender como transformar criação em negócio sustentável.
Ao mesmo tempo, amadureci como pessoa. Isso me fez entender melhor o que eu estava dizendo por trás das histórias. Com isso, pude trazer mais profundidade para os personagens, para os conflitos e para o universo de Megasônicos NG como um todo.
8. Existe alguma mensagem pessoal que você sempre quis transmitir através de Megasônicos NG?
A mensagem principal de Megasônicos NG é que cada pessoa carrega uma energia interna capaz de transformar sua própria realidade. Só que muita gente precisa que o “Mega Artefato” esteja no pulso para lembrar que essa força já existe dentro dela.
Quem sabe um dia a gente entenda que dá para ser o Megasônico Supremo. Olha o spoiler...
9. Como nasceu a Valu Studios?
O Valu Studios nasceu em 14 de setembro de 2001. Eu já trabalhava com computação gráfica havia mais de três anos, principalmente no mercado de publicidade e prestação de serviços para televisão. Depois de ser convidado para um projeto de série — que não vem ao caso citar — e ter uma grande decepção com ele, entendi que precisava criar minha própria empresa, com meus próprios valores.
O estúdio nasceu para ser o lugar responsável por materializar meus sonhos e transformá-los em objetivos reais, buscados com método, trabalho e visão de longo prazo.
10. Qual é a visão da Valu Studios para o futuro da produção nacional de quadrinhos, animação e cultura geek?
Hoje o Valu Studios se tornou um hub de negócios criativos. [...]
“A lógica é simples: a pessoa entra para assistir nossos conteúdos, aprende a produzir os seus próprios, acompanha tutoriais e cursos, e futuramente pode até licenciar suas produções dentro do nosso ecossistema.”
O objetivo é construir um ambiente saudável, expansível e 100% brasileiro. Quem sabe um dia não nos tornamos, para a cultura geek brasileira, algo tão relevante quanto o modelo de comitês é para a cultura pop japonesa.
SOBRE O UNIVERSO DE MEGASÔNICOS NG
11. Megasônicos NG mistura tokusatsu, cyberpunk, ficção científica e crítica ambiental. Como foi encontrar equilíbrio entre tantos elementos diferentes?
Essa foi uma das partes mais naturais do processo, porque tudo isso já estava dentro do próprio assunto. Quando você lembra de Spectreman, nos anos 1970, falando de monstros que surgiam do lixo tóxico, ou de Godzilla, nascido do trauma atômico, já percebe que essas obras discutiam degradação ambiental, medo tecnológico e futuro distópico muito antes de isso virar conversa popular.
Então foi uma questão de pegar essas referências que permearam minha infância, misturar com ficção científica, tokusatsu, anime, mangá e colocar um molho brasileiro por cima. E está aí: os nossos queridos Megasônicos NG.
“Eu também tenho um pensamento meio arborizado. Isso ajuda.”
12. O universo da obra possui uma identidade visual muito forte, especialmente o Rio de Janeiro cyberpunk de 2054. Como foi desenvolver essa estética futurista brasileira?
Essa visão vem muito do que eu escutava durante a ECO-92, no Rio de Janeiro. Cientistas do mundo inteiro vieram discutir o futuro do planeta e alertar que estávamos caminhando rapidamente para a nossa própria extinção ambiental.
Desde então, fiquei imaginando como seria viver em um mundo onde aquilo tudo se tornasse realidade. Megasônicos NG nasce, em parte, desse exercício de futurologia. Infelizmente, muita coisa que eu imaginava como ficção começou a se aproximar da realidade.
Na parte gráfica, eu queria fugir do óbvio. Seria fácil copiar Blade Runner, mas não era isso que eu queria. Eu precisava reimaginar esse futuro de um jeito que fosse verossímil para mim, com a nossa paisagem, nossas contradições e nossa identidade.
13. Mesmo sendo criada nos anos 90, a obra aborda temas extremamente atuais como crise climática, monopólio corporativo e dependência tecnológica. Você sente que Megasônicos “previu” discussões que hoje se tornaram realidade?
“Infelizmente, sim. A humanidade é bastante previsível, e isso não costuma ser bom para a grande massa da população. Damos um passo para frente, mas a ganância costuma nos puxar três passos para trás.”
No final, quem paga a conta é sempre a população. Muitas vezes sem nem perceber que está pagando.
14. A Atroz é uma corporação que controla o oxigênio e sustenta uma falsa estabilidade mundial. O quanto essa ideia nasceu como crítica social?
100%. Sou apaixonado por História e Geopolítica. Para mim, elas funcionam quase como uma fórmula para tentar prever o futuro. E eu entendo que minha obrigação, como contador de histórias, é traduzir esses assuntos de forma lúdica para que mais pessoas possam compreender.
Mitos e lendas sempre fizeram isso: explicavam forças complexas do mundo por meio de narrativas acessíveis. É por isso que eles continuam nos interessando até hoje.
15. O conceito das árvores substituídas por hologramas é um dos elementos mais impactantes da obra. Como surgiu essa ideia?
Não. E aqui eu peço licença para ser um pouco nerd.
O colapso de 2030, narrado em Megasônicos NG, comprometeu os sistemas naturais de renovação, purificação e equilíbrio ambiental. A sobrevivência humana passou a depender de estações artificiais de filtragem e distribuição de oxigênio, controladas pela Atroz.
[...] Em Megasônicos NG, as árvores holográficas representam visualmente a ideia de que “naquele lugar está tudo bem”, porque o ar daquela região está sendo filtrado. Mas nem todo território tem filtragem premium. Uma miniusina de filtragem não é acessível para qualquer classe social.
“Por isso, algumas comunidades respiram um oxigênio de má qualidade, como aparece no Volume 3, quando Kelê, o capoeirista baiano, fala sobre o ‘oxigênio ruim’ distribuído pela Atroz para sua comunidade.”
16. Quem realmente são os Megasônicos dentro da mitologia da franquia?
“Aí você quer o spoiler máximo... hahahaha ... aos poucos vou contando para vocês. ^_^”
17. Existe uma história maior e mais antiga por trás da guerra ancestral mencionada na obra?
Simmmmm ... Estou escrevendo uma light novel que se passa 200 anos antes da história de Dito Terrine. E mesmo antes disso já existiam acontecimentos importantes dentro desse universo. Tem muito pano para manga.
18. Dito Terrini e Ark Doneriti possuem personalidades opostas, quase como razão e emoção. Essa dualidade foi planejada desde o início?
Foi planejada intencionalmente. Inclusive, vem coisa grande por aí justamente por causa dessa dicotomia.
19. Dito parece carregar o peso do “legado”, enquanto Ark representa impulso e emoção. Qual dos dois você mais se identifica?
Sim. Os dois sou eu. Eles são meu Yin e meu Yang. Na verdade, todos os personagens têm um pouco de mim. Como os “filhos do Pai” em Fullmetal Alchemist, cada um carrega uma parte simbólica, emocional ou contraditória do criador.
20. Victor Lara é um antagonista extremamente moderno, porque ele representa o poder corporativo acima da humanidade. Como foi construir esse personagem?
Victor Lara representa tudo aquilo em que o povo comum muitas vezes acredita quando procura uma figura salvadora.
“É o Collor, o Elon Musk e tantos outros personagens reais ou simbólicos que aparecem com essa promessa de salvação. As ferramentas mudam. Hoje são mais tecnológicas, mais midiáticas, mais sofisticadas. Mas as motivações continuam muito parecidas com as da Grécia Antiga.”
21. O personagem X-General possui uma aura muito misteriosa. Podemos esperar grandes revelações sobre ele futuramente?
X é meu vilão favorito, e de muitos leitores também. Ele farma aura e entrega. E vai entregar muito mais em breve.
22. O conceito de Mega-Simbiose é um dos elementos mais interessantes da obra. Existem riscos ou consequências ainda maiores ligados a esse poder?
A maioria dos que tentaram executar essa ligação perdeu sua força vital. É um grande tabu nas técnicas dos guerreiros antigos.
23. O quanto o esporte radical influencia a identidade dos personagens e da narrativa?
Mil por cento. É de onde eu vim. Eu fui skatista na infância e na adolescência. Até hoje meu skate está guardado, olhando para mim, um pouco abandonado, mas ainda lá.
No cânone dos personagens, os esportes vêm junto com a personalidade. Nada foi escolhido por acaso. Cada modalidade foi pensada para dialogar com o comportamento, o corpo, a energia e o conflito interno de cada personagem.
24. Existe algum personagem da obra que você considera subestimado ou que ainda possui muito a revelar?
Todos os personagens merecem a atenção do leitor. Mesmo aquele que parece menor tem sua função dramática. Fica a dica: tudo tem propósito.
25. Qual foi o maior desafio técnico e criativo ao transformar Megasônicos NG em websérie animada?
A técnica de animação de Megasônicos NG vem sendo estudada e aprimorada desde 1997. Acabei ganhando reconhecimento internacional por causa dessas técnicas, mas o maior desafio é formar uma equipe que já venha treinada com esse conhecimento específico.
“Por isso o Valu Academy é tão importante para mim. Os cursos, tutoriais e mentorias são uma forma de compartilhar esse conhecimento com mais pessoas, e ao mesmo tempo, formar talentos para futuras produções.”
26. Como foi ver a obra ganhar reconhecimento e vencer o prêmio ABRAHQ?
Foi incrível. Principalmente porque foi um prêmio no qual eu não me inscrevi. Foi júri popular. Os leitores me indicaram e eles mesmos votaram. Não existe coisa mais bonita para um escritor, artista ou criador de universos.
Minha criança interior deu saltos triplos de alegria. E este ano também ganhei o FLISC Awards, que me emocionou muito.
27. Você acredita que o mercado brasileiro atual está mais preparado para universos nacionais de sci-fi e tokusatsu?
Eu acredito que temos muito potencial, mas precisamos entregar o que o público espera. Hoje todo mundo tem internet. As pessoas assistem ao que existe de melhor no mundo. Então, naturalmente, elas querem de nós algo comparável ao melhor do mundo.
Esse é o desafio: não temos o mesmo dinheiro das grandes companhias internacionais, mas temos uma arma secreta que o Brasil tem de sobra: criatividade.
“Já existem obras brasileiras maravilhosas, capazes de competir em qualidade, identidade e força autoral. Tenho a felicidade de saber que Megasônicos NG está nessa lista.”
28. Megasônicos NG possui potencial para virar série, animação maior ou até live-action no futuro?
Pouca gente sabe, mas os primeiros testes de Megasônicos NG foram pensados para live action com computação gráfica, porque eu era especialista em efeitos especiais. Depois, o projeto caminhou para a animação e para o mangá.
Mas na minha planilha existem séries, filmes e jogos para o futuro. Tudo depende do apoio do público nessa jornada. Se o público quiser, o futuro será cheio de conteúdos Megasônicos.
29. Existe vontade de expandir o universo para games, filmes ou outros formatos transmídia?
Sim. Meu estúdio é especializado em transmídia, e Megasônicos NG já teve um jogo em Flash no início dos anos 2000. Só que isso aconteceu muito antes de existir um mercado estruturado para esse tipo de produto no Brasil.
“Agora, com as ferramentas atuais, estamos reconstruindo esse ecossistema com mais calma, método e estratégia. Se o público vier junto, ainda vem muita coisa boa por aí. Inclusive bonecos colecionáveis.”
30. O que ainda não vimos de Megasônicos NG que pode surpreender os leitores no futuro?
Eu sei o que existe dentro da história e conheço as possibilidades de desdobramento. Então, confesso: fico me coçando para falar. Mas prefiro construir com calma e só anunciar quando as coisas estiverem mais concretas.
O que posso dizer é: venham junto nessa jornada.
31. Depois de tantos anos construindo esse universo, o que Megasônicos representa para você hoje?
Megasônicos NG representa o meu eu. É meu legado. É a forma que encontrei para discutir o presente, aprender com o passado e imaginar um futuro mais humano dentro de um mundo cada vez mais mecatrônico, digital e corporativo.
32. Se você pudesse definir Megasônicos NG em apenas uma frase, qual seria?
Eu escolheria uma frase do General Pulsar, quando ele explica para Dito o que faz o Mega Artefato:
“- Se você souber o que está fazendo, seu cérebro comandará o seu corpo!”
Ele está falando de prática, estudo e acreditar no que você aprendeu com seu esforço. E sempre será nessa ordem.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
33. Depois de tudo o que viveu construindo Megasônicos NG ao longo dessas décadas, o que você gostaria que o público sentisse ao conhecer esse universo pela primeira vez?
Megasônicos NG tem conteúdos densos e mensagens importantes, mas eu escrevi — e escrevo — de maneira que tudo isso se dilua em uma aventura de ação e diversão.
“Meu objetivo principal é que o leitor ou espectador tenha um momento para se perder na obra, em uma aventura visual de tirar o fôlego. Se ele absorver um pouco da mensagem, melhor ainda. Mas o principal é fazer a turma se divertir e querer voltar sempre para esse meu mundo.”
34. Qual você acredita ser o maior diferencial de Megasônicos NG dentro da cultura geek brasileira?
Não sei se existe um grande diferencial, porque infelizmente não conheço tudo o que o Brasil está produzindo.
Mas eu tenho o objetivo de apresentar o Brasil para os brasileiros. Isso acontece através da presença física de personagens de vários estados diferentes, com suas prosódias, seus costumes e suas linguagens originais.
Também acontece através da conjuração de poderes em Tupi-Guarani, ampliando ancestralidades com nomes em Zulu, na África, e em outros povos que fazem parte do DNA brasileiro.
“Eu quero que cada criança e adolescente estrangeiro saia gritando M’Boji da mesma maneira que grita Kamehameha... hahaha.”
35. Em um cenário onde a produção independente nacional enfrenta tantos desafios, o que mantém você motivado a continuar criando?
Eu faço o que amo antes de ser uma possibilidade de ganhar dinheiro com isso. E meu plano é fazer isso até o último dia da minha vida.
Saber que ainda posso ser remunerado por isso e ajudar outros brasileiros a fazerem o mesmo caminho é um privilégio. Isso só me dá forças para fazer mais, melhor e de maneira mais intensa.
36. O que você diria hoje para aquele jovem criador que sonhava em construir seu próprio “Star Wars brasileiro”?
Consuma obras brasileiras. Consuma o mercado brasileiro.
Se você não fertiliza o terreno em que está querendo pisar, não terá como plantar ou colher nele no futuro.
Se quer trabalhar no Brasil, fomente e se orgulhe de fazer parte do Brasil em que você mora. E se acha que o Brasil não está bom o suficiente, ajude a melhorá-lo, contribuindo com o que puder.
“Jaqueira não dá melão... hahaha.”
37. Existe algum sonho que você ainda deseja realizar com Megasônicos NG e com a Valu Studios?
Nossa... tenho uma lista quilométrica... hahaha.
Ter um exemplar de Megasônicos NG na mão de cada brasileiro é o primeiro deles. A pessoa não precisa gostar da obra. Só de ter a oportunidade de tê-la nas mãos, folhear e poder decidir se vale a pena ler ou não, já seria incrível.
Claro que, se gostar e falar bem do meu filhote, vou ficar mais feliz ainda... hahaha.
38. Que mensagem você gostaria de deixar para os leitores da Ludo TV e para todos que acompanham e apoiam produções nacionais?
Sonhem.
Se você tem a capacidade de sonhar, dá para transformar isso em objetivo. Objetivos te possibilitam transformar sonhos em planos. Planos te dão a faculdade de trilhar caminhos para se capacitar e transformá-los em realidade.
Essa realidade se torna espelho para outros, e isso muda o seu entorno. Seu entorno transforma a realidade de um país.
Então, sonhem!
39. O futuro da cultura geek brasileira passa por obras autorais como Megasônicos NG?
Acredito que a cultura geek é fruto da indústria de massa. É um comércio. Não podemos ser ingênuos e pensar o contrário.
Mas esse comércio está atrás de oportunidades de negócios. E, se o público entender que nossas produções independentes são interessantes, o negócio vem a reboque. Isso transforma essas obras em destaques. E isso, sim, pode mudar nossa percepção do que consumir.
“As novelas brasileiras influenciaram várias gerações, moldando a cultura do Brasil. Mauricio de Sousa, um brasileiro, moldou infâncias com a Turma da Mônica. Então nossos quadrinhos e animações podem, sim, ser a próxima tendência.”
40. Para finalizar nossa conversa, Valu, gostaríamos de abrir um espaço para que você deixe uma mensagem diretamente para o seu público e também para todos os aspirantes a criadores que enxergam o seu trabalho como uma grande inspiração. O que você gostaria de dizer para eles?
Estudem.
Não só a técnica que você pretende usar nos seus desenhos ou em suas animações. Mas também o mercado editorial, os negócios ao redor da exploração dessas obras, como viver da sua arte, e como são financiadas no seu país.
Tem espaço e eu vivo só disso desde 1995. E apesar do meu mascote ser um alienígena... hehehe, eu sou da terra, tanto quanto todos os leitores.
Dá para sonhar.
Gostou da entrevista? Compartilhe com aquele amigo que também sonha em ver o Brasil dominar o mundo geek. E fique de olho: Megasônicos NG está só começando a mostrar sua força.
Siga Valu Vasconcelos e a Valu Studios nas redes. O futuro — assim como o Mega Artefato — já está no seu pulso.




Amei ser entrevistado pela equipe da LudoTV.
ResponderExcluirPerguntas inteligentes e cheias de possibilidades.
Vamos fazer o Brasil exportar nossas obrar independentes!