Todo ano, no dia 30 de janeiro, um movimento silencioso, mas potente, percorre as pranchetas, as mesas de digitalização, as bancas de revistas e as redes sociais. Artistas, leitores e entusiastas erguem suas canetas — ou suas canetas digitais — não apenas para celebrar, mas para reafirmar uma existência. Essa é a essência do Dia do Quadrinho Nacional: uma data que nasceu da resistência e que, quatro décadas depois, está prestes a conquistar seu lugar na lei.
Mas essa história vai muito além de um projeto de lei. Ela começa com traços de nanquim sobre papel, em um Brasil Imperial.
O Pioneiro Que Desenhou um País em Transformação
Imagine o Rio de Janeiro de 1869. Um cenário de efervescência política, social e cultural. É nesse contexto que Angelo Agostini, um imigrante italiano com olhar afiado, começa a publicar “As Aventuras de Nhô-Quim”. Não eram meras ilustrações soltas. Era narrativa sequencial, personagem fixo, crítica social disfarçada de humor. Agostini não estava apenas contando uma história; ele estava documentando o Brasil com uma linguagem revolucionária para a época.
E aí reside a primeira provocação: nosso quadrinho nasceu crítico, urbano e consciente. Não foi um acidente. Foi uma escolha estética e política.
A Batalha Semântica Que Define uma Identidade
Por que a insistência em chamar de "Dia do Quadrinho Nacional" e não "Dia Nacional dos Quadrinhos"? Essa é a chave para entender tudo.
Dia do Quadrinho Nacional (30 de janeiro): É a nossa voz. Celebra a produção autoral brasileira, dos pioneiros aos contemporâneos. É um grito de existência num mercado historicamente dominado por super-heróis estrangeiros.
Dia Nacional das HQs (14 de março): Homenageia um suplemento que, embora importante para a popularização do meio, era majoritariamente estrangeirizante.
Confundir as datas é apagar a luta por espaço, reconhecimento e valorização de quem desenha o Brasil, com temáticas, ritmos e traços brasileiros.
O Projeto de Lei 2328/2024: Mais Que um Reconhecimento, um Compromisso
A possível oficialização da data por lei federal não é mera formalidade. É um ato simbólico poderoso. O projeto da deputada Juliana Cardoso (PT-SP) já passou pela Câmara e agora aguarda o Senado. Seu texto é curto, mas denso:
Institui a data: 30 de janeiro vira marco no calendário cultural oficial.
Obriga o poder público a agir: Promover atividades públicas que divulguem a arte sequencial nacional.
Faz um alerta crucial: O parágrafo único deixa claro que celebrar não basta. É preciso criar políticas públicas concretas para a cadeia produtiva, garantindo emprego e renda aos artistas.
É uma lei que, se aprovada, diz: “Quadrinho brasileiro é cultura, é economia, é patrimônio. E o Estado precisa enxergar isso.”
Do Tico-Tico ao TikTok: A Linha do Tempo Viva dos Nossos Quadrinhos
Olhe para a linha do tempo do quadrinho nacional e você verá a história do Brasil refletida nos traços:
Crítica Social (Séc. XIX): Agostini e Sisson retratando os costumes e contradições.
Encantamento Infantil (1905): O surgimento d’O Tico-Tico, formando gerações.
A Era de Ouro e a Crise: Dos suplementos aos catecismos da Turma da Mônica e do Menino Maluquinho.
O Renascimento Adulto (Anos 80/90): Chiclete com Banana, Geraldão, e a explosão de vozes como Laerte, Angeli e Glauco.
A Cena Contemporânea: Autores como Marcelo Quintanilha, Marcelo D’Salete, Lauricio de Sousa (Solar), Ana Luiza Koehler e Gustavo Borges conquistando prêmios internacionais (Eisner, HQ Mix) e tratando de temas como escravidão, periferia, identidade e memória com sofisticação gráfica ímpar.
A Revolução Independente: A zine, o crowdfunding, o webcomic e as redes sociais democratizaram a produção. Hoje, qualquer pessoa com uma ideia e um estilo pode circular sua arte para o mundo.
E Agora? Como Fazer Desse Dia Mais Que um Hashtag?
A data só tem sentido se for viva e coletiva. Então, vamos engajar?
Para Leitores: Compre um quadrinho nacional hoje. Visite uma banca, uma livraria independente ou uma plataforma digital. Descubra um autor novo.
Para Artistas: Poste seu trabalho, conte sua trajetória, use a hashtag DiaDoQuadrinhoNacional. Mostre seu processo criativo.
Para Professores: Que tal usar quadrinhos brasileiros em sala de aula? A linguagem é acessível e o conteúdo, rico.
Para Todos: Cobre seu senador! Informe-se sobre o PL 2328/2024 e mostre que a sociedade civil quer ver essa lei aprovada. A cultura precisa de vontade política.
Uma Data Com Futuro
O Dia do Quadrinho Nacional é um espelho. Nele, vemos nosso passado de pioneirismo, nosso presente de diversidade criativa e nossa luta por um futuro com mais espaço, respeito e sustentabilidade para os artistas.
Que o 30 de janeiro seja sempre um dia de celebração, mas também de luta. De lembrar que cada traço, cada balão, cada página é parte da narrativa gráfica do Brasil.
Vamos fazer barulho. Vamos fazer história. Viva o quadrinho nacional!






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