Antes do tiro, antes da estatística, antes do título de jornal — o que aconteceu? O que duas crianças negras na periferia de São Paulo conversaram na noite anterior? O que elas sonharam, brincaram e temeram?
É essa lacuna brutal que o curta “Debutantes, e os momentos antes, Tiw?!” resolveu escavar. E, ao fazer isso, entregou um dos retratos mais honestos e dolorosos da infância favelada no Brasil.
Produzido pela produtora periférica MandaBusca e dirigido pelo visionário Deley IFC, o curta de 13 minutos não é uma obra para adultos “entenderem a periferia”. É um grito de dentro para dentro. E um espelho na cara de quem sempre olhou para o outro lado.
A história de Tité e DiMenó
O filme se passa no Jardim Fontalis, Zona Norte da capital, o mesmo berço que criou o rapper Emicida — que assina um posfácio em poema inédito, narrando o fim com a precisão de quem viveu cada frame.
A trama acompanha Tité e DiMenó, dois meninos que já carregam o peso de homens nas costas. Entre cambalhotas na rua, risadas e aquela liberdade cruel da infância periférica, eles filosofam sobre um futuro que teima em não chegar.
Tité ainda enxerga uma saída. Ele cogita deixar o crime.
DiMenó já desistiu de procurar. Para ele, jovens negros e periféricos não têm outra alternativa.
E é nesse duelo entre esperança e conformismo que o filme constrói sua força. Até que um instante fugaz — daqueles que duram menos que um piscar de olhos, mas ecoam pela eternidade — transforma tudo ao redor.
A técnica que subverte a regra
"Debutantes" é uma animação 2D, mas não se engane: aqui não há lugar para a leveza dos desenhos infantis tradicionais. O diretor Deley IFC e o diretor de animação Allan Matias desafiaram a lógica:
“O filme não é para adultos, mas tratamos as crianças que vão assistir com respeito e seriedade.”
O maior desafio, segundo Deley, foi fazer a favela respirar. Fazer com que a vida de Tité e DiMenó parecesse real antes do "REC" e continuasse pulsando depois dos créditos. E eles conseguiram. Cada traço sujo, cada sombra no muro, cada olhar cansado das crianças foi desenhado para doer.
O peso do posfácio com Emicida
A obra já rodou festivais internacionais na Europa e voltou ao Brasil com apoio da SPCine, sendo exibida nos dias 16 a 22 de abril no Centro Cultural de São Paulo e no CEU Jaçanã. Mas é impossível falar do filme sem destacar a participação de Emicida.
Em um poento inédito, o rapper não apenas narra — ele ampara. Ele costura os 13 minutos com a sabedoria de quem também foi criança no Jardim Fontalis e viu seus amigos se perderem nas mesmas encruzilhadas que Tité e DiMenó.
“O estúdio fica a poucos metros do primeiro palco que subi na vida. Ver arte sendo desenvolvida naquele universo, para aquele universo, era o meu sonho há 30 anos.”
Por que você precisa assistir?
"Debutantes" não vem dar respostas. Ele vem entregar perguntas que machucam:
Quantos Tités e DiMenós perdemos enquanto discutimos estatísticas?
O que aconteceu nos “momentos antes” de cada manchete violenta?
Por que ainda tratamos como exceção o que é regra para milhões de crianças?
O filme é um soco poético. Uma obra que subverte a ideia de que animação é sinônimo de ingenuidade. E, acima de tudo, um marco do cinema nacional periférico — feito por quem sempre esteve lá, mas nunca teve a câmera na mão.
Vale a pena?
Sim. Mas prepare-se. Você não sai do mesmo jeito.
“Debutantes - E os Momentos antes, Tiw?!”
Duração: 13 minutos
Onde ver: Fique de olho nas redes da MandaBusca (@mandabuscaa)
Classificação: Infantil? Sim. Mas com a seriedade que toda criança favelada merece.
Valorize o cinema nacional. Porque arte que vem da quebrada também é arte, porra.
E você, vai continuar olhando para o lado? Ou vai encarar os momentos antes?




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